Era uma vez, numa cidade vibrante onde as casas coloridas se alinhavam em ruas de paralelepípedos, morava um menino chamado Beto. Beto era conhecido por sua curiosidade insaciável e por estar sempre com a cabeça nas nuvens, imaginando inventos e novas brincadeiras. Seu melhor amigo era Tico, um passarinho de penas azuis e um canto alegre que o seguia por toda parte.
Perto da praça principal, ficava a loja de Dona Aurora, uma relojoeira com mãos ágeis e olhos que pareciam enxergar através do tempo. A oficina de Dona Aurora era um lugar mágico, repleto de engrenagens brilhantes, ponteiros finos e o tic-tac harmonioso de dezenas de relógios. Um dia, Beto foi incumbido de levar um relógio antigo e valioso para Dona Aurora consertar, pois era o relógio da torre da cidade que havia parado.
Beto segurava o relógio com muito cuidado. Dona Aurora, com seu jeito calmo, explicou a importância da responsabilidade: Beto deveria levá-lo sem se distrair. Ele prometeu. Mas, como sempre, a curiosidade de Beto falou mais alto. A caminho da loja, ele avistou um grupo de crianças jogando bola em um campinho de terra batida. A bola rolou para perto dele, e sem pensar, Beto chutou-a de volta. O relógio, que estava em sua mão, escorregou e caiu no chão, quebrando a tampa de vidro e entortando um dos ponteiros.
O coração de Beto apertou. Ele pegou o relógio com as mãos trêmulas. O que Dona Aurora diria? Ele pensou em esconder, em dizer que o relógio já estava quebrado, mas Tico, pousado em seu ombro, piou baixinho.
— Beto, você sabe o que fazer — disse Tico com sua voz fininha, quase inaudível, mas cheia de sabedoria. — A responsabilidade é como uma linha que nos liga ao que é certo.
Beto suspirou. Era difícil, mas Tico estava certo. Ele caminhou até a oficina de Dona Aurora com a cabeça baixa. Ao entrar, o som dos relógios parecia julgar sua falha.
— Dona Aurora — começou Beto, mostrando o relógio quebrado —, eu sinto muito. Eu estava distraído e o relógio caiu. Fui irresponsável.
Dona Aurora olhou para o relógio, depois para Beto. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Beto, você teve coragem de assumir o que fez — disse ela, pegando o relógio com carinho. — Isso é o mais importante. Errar é humano, mas assumir a responsabilidade nos ensina a consertar as coisas, não só os relógios, mas também nossos erros.
Dona Aurora sentou-se à sua bancada e convidou Beto a se aproximar. Com paciência, ela começou a mostrar a ele as pequenas engrenagens, como consertar o ponteiro e substituir o vidro. Beto observava cada movimento, prestando atenção como nunca antes. Ele ajudou a segurar as peças pequenas e, aos poucos, o relógio voltou a funcionar, tic-tac, tic-tac, com um som alegre e renovado.
Ao final, Beto sentiu um orgulho diferente. Não era o orgulho de ter feito algo perfeito, mas o orgulho de ter enfrentado seu erro e trabalhado para consertá-lo. Ele aprendeu que a responsabilidade não é um fardo, mas um caminho para a confiança e para o crescimento. E Tico, do alto de uma estante, piou mais alto do que nunca, como se celebrasse a grande lição de Beto. A partir daquele dia, Beto se tornou um menino mais atento e responsável, sempre lembrando do relógio quebrado e do valor de suas próprias ações.