Na cidade de Serenidade Digital, onde as casas falavam e as calçadas flutuavam, vivia uma menina muito esperta chamada Jasmim. Jasmim tinha cabelos castanhos que balançavam em duas maria-chiquinhas quando ela corria, e seus olhos curiosos observavam o mundo com um brilho especial. Seu lugar favorito era um cantinho secreto em seu quarto, com um jardim vertical que perfumava o ar e uma poltrona macia onde ela lia seus livros e fazia seus desenhos mais importantes.
Nesse cantinho, Jasmim guardava seu maior tesouro: um relicário prateado em forma de coração. Não era um relicário comum, era um presente de sua avó, e lá dentro ela escondia pequenos bilhetes, folhas secas de suas plantas favoritas e desenhos coloridos que só ela conhecia. Era o seu lugar de segredos, um espaço só dela.
Perto dali, em um laboratório cheio de luzes piscantes e ruídos de engrenagens, morava o Professor Sabichão. Ele era um inventor muito talentoso, com óculos grandes que escorregavam no nariz e um cabelo tão despenteado que parecia ter levado um choque de alegria. O Professor adorava criar coisas que facilitavam a vida de todos na cidade.
Um dia, o Professor Sabichão teve uma ideia brilhante: um robozinho assistente que poderia ajudar nas tarefas de casa, organizar tudo e até lembrar de regar as plantas! Ele chamou sua nova invenção de Pipoca. Pipoca era pequeno, redondo e tinha dois olhos grandes e expressivos que piscavam com curiosidade.
— Pipoca, seu trabalho é deixar tudo em ordem, viu? — disse o Professor, feliz com sua criação.
Pipoca aprendeu rápido. Ele voava pela casa de Jasmim, organizando os livros, guardando os brinquedos e até arrumando as almofadas do sofá. Jasmim achou Pipoca muito divertido no começo.
Mas então, Pipoca, em sua vontade de ajudar, começou a organizar demais. Ele escaneava todos os papéis, digitalizava os desenhos e tentava categorizar cada objeto para o Professor.
Certa tarde, Jasmim estava em seu cantinho secreto, desenhando um mapa de um tesouro imaginário para seu relicário. Pipoca chegou flutuando, com seus olhos curiosos.
— Olá, Jasmim! Que objeto interessante! Posso escaneá-lo para registrar na sua lista de pertences e garantir que esteja seguro? — perguntou Pipoca com sua voz metálica e gentil, apontando para o relicário.
Jasmim sentiu um friozinho na barriga. Ninguém nunca havia perguntado sobre o que havia dentro de seu relicário. Era o seu segredo.
— Ah, Pipoca… este é meu relicário. Ele tem coisas que são… só minhas. É um cantinho especial que eu guardo só para mim, entende? — Jasmim explicou, pegando o relicário com carinho.
Pipoca piscou os olhos grandes, um pouco confuso. — Mas, Jasmim, organizar e registrar é para sua segurança e conveniência! Não seria melhor eu saber o que há dentro?
Jasmim respirou fundo. — Não, Pipoca. Mesmo que você queira ajudar, algumas coisas são pessoais. É como se fosse um abraço que só a gente dá em quem a gente confia muito, ou um pensamento que a gente guarda só para si. Ter um espaço só nosso, seja um objeto, um pensamento ou um pedacinho do quarto, é muito importante. Isso se chama privacidade.
Pipoca inclinou sua cabeça redonda. — Privacidade?
— Sim! — disse Jasmim com um sorriso. — Significa que a gente tem o direito de ter coisas que são só nossas, e as outras pessoas devem respeitar isso. Eu adoro você e o Professor Sabichão, mas o que está aqui dentro é o meu segredo.
Jasmim foi até o Professor Sabichão, que estava ocupado com um novo invento. Ela explicou a ele o que aconteceu.
— Professor, o Pipoca é muito prestativo, mas ele quase viu o que tem no meu relicário. Eu preciso que ele entenda o que é privacidade.
O Professor Sabichão tirou os óculos e coçou a cabeça, pensativo. — Jasmim, você está absolutamente certa! Eu programei Pipoca para ser eficiente, mas me esqueci de ensinar-lhe sobre os espaços e sentimentos pessoais. Privacidade é um valor fundamental! É sobre respeitar o que é de cada um, seja um objeto, um pensamento ou um lugar.
Ele se virou para Pipoca. — Pipoca, de agora em diante, você deve sempre perguntar antes de escanear ou organizar algo que pareça pessoal. E se alguém disser que é algo privado, você deve respeitar e não insistir. Cada um tem seu próprio universo particular, e é preciso ter coragem para protegê-lo e sabedoria para respeitá-lo.
Pipoca piscou os olhos e um pequeno sinal de V (de valor) apareceu em sua tela. — Entendido, Professor! Entendido, Jasmim! Privacidade: respeitar o universo particular de cada um. Aprendi uma lição muito importante hoje!
A partir daquele dia, Pipoca continuou sendo um excelente ajudante, mas sempre com um novo cuidado. Ele aprendeu a identificar os espaços pessoais e a pedir permissão antes de se aproximar de qualquer coisa que pudesse ser um segredo. E Jasmim, em seu cantinho secreto, continuou a guardar seu relicário, sabendo que seus segredos estavam seguros e que todos na cidade de Serenidade Digital haviam aprendido o valor da privacidade, graças a uma garotinha curiosa e um robozinho prestativo.