Na Floresta dos Sons e Ecos, onde as árvores gigantes sussurravam histórias antigas, vivia Juca, um ouriço muito esperto e cheio de ideias. Juca era um inventor e passava seus dias construindo máquinas maravilhosas, sempre sonhando em voar. Seu último projeto era um veículo com hélices que ele chamava de Voador-Rodador, pois ele prometia rodar e voar.
Perto dali, em um galho alto de uma goiabeira florida, morava Mariana, uma passarinha com penas de todas as cores do arco-íris. Mariana era pura alegria, vivia cantando melodias doces e observava tudo com seus olhinhos curiosos. Ela adorava a sua goiabeira, que era o lugar perfeito para seu ninho e para observar o movimento da floresta.
Um dia, enquanto Juca testava seu Voador-Rodador com grande entusiasmo, algo deu errado. Uma das hélices se soltou e, girando sem controle, atingiu em cheio a goiabeira de Mariana. Com um estalo alto, o galho quebrou e o ninho de Mariana caiu no chão, espalhando suas penas coloridas.
Mariana, que estava colhendo frutinhas, voltou e viu a cena. Suas penas, antes tão vibrantes, pareciam opacas. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Juca, ao ver o desastre, sentiu um aperto no coração. Ele sabia que tinha feito algo muito errado. Mas o orgulho, como um espinho invisível, impediu que as palavras Desculpa, Mariana, saíssem de sua boca. Ele apenas murmurou algo sobre a máquina e saiu correndo, envergonhado.
Mariana ficou muito triste e brava. Ela tentou reconstruir seu ninho, mas a tristeza era grande demais. O canto que antes enchia a floresta agora estava em silêncio. Juca também não conseguia se concentrar em suas invenções. A imagem do ninho destruído e o olhar triste de Mariana o perseguiam.
O Professor Sabichão, um macaco sábio de pelo cinza e óculos na ponta do nariz, observava tudo de sua árvore mais alta. Ele conhecia os corações de todos na Floresta dos Sons e Ecos. Ao ver a tristeza dos dois amigos, ele decidiu agir.
Professor Sabichão encontrou Juca, que estava chutando pedrinhas à beira do rio.
Ora, ora, Juca, por que essa cara de nuvem carregada? perguntou o Professor com sua voz calma.
Juca suspirou e contou o que havia acontecido.
O Professor Sabichão assentiu. Um erro é um erro, Juca. Mas não consertá-lo é o verdadeiro problema.
Depois, o Professor foi conversar com Mariana, que estava de bico emburrado.
Mariana, minha querida, a raiva é um peso pesado para um passarinho tão leve, disse ele.
O Professor Sabichão então propôs um desafio: Ele pediu para Juca e Mariana irem juntos até a Cachoeira Cintilante ao pôr do sol.
A Cachoeira Cintilante, dizem as lendas, só mostra seu brilho mais especial quando os corações da floresta estão em paz, explicou o Professor.
Juca e Mariana, ainda um pouco ressabiados, concordaram. Eles caminharam lado a lado, sem se falar. O silêncio era desconfortável. Ao chegarem à cachoeira, o sol começava a se deitar, tingindo o céu de laranja e roxo. A água da cachoeira tinha um brilho suave, mas não o brilho intenso que as lendas contavam.
Juca olhou para Mariana. Ele viu a tristeza em seus olhos e sentiu um peso no peito. As palavras que estavam presas em sua garganta finalmente se soltaram.
Mariana, me desculpe muito pelo seu ninho e pela sua goiabeira. Eu não queria que isso acontecesse. Eu fui desajeitado e meu orgulho me impediu de vir falar com você antes, disse ele, com a voz embargada.
Mariana ficou surpresa. A sinceridade na voz de Juca era evidente. Ela sentiu a raiva que carregava começar a diminuir. Ela se lembrou de todas as vezes que Juca a ajudara a encontrar frutinhas raras ou a consertar seu balanço.
Juca, eu te perdôo, respondeu Mariana, com um pequeno sorriso. E eu também sinto muito por ter ficado tão brava por tanto tempo.
Nesse exato momento, enquanto as palavras de perdão eram ditas, a Cachoeira Cintilante começou a brilhar com uma intensidade mágica. Não era uma magia de feitiço, mas uma magia de luz e cor. Raios dourados, prateados e azuis dançavam na água, transformando a cachoeira em um espetáculo deslumbrante. As árvores ao redor pareciam vibrar com a luz.
Juca e Mariana se olharam, maravilhados. O Professor Sabichão sorriu de sua rocha.
Viram, meus amigos? O perdão não é só para quem recebe, mas também para quem dá. Ele acende a luz mais bonita dentro de nós, disse o Professor.
A partir daquele dia, Juca e Mariana voltaram a ser os melhores amigos. Juca ajudou Mariana a construir um ninho novo e ainda mais bonito na goiabeira, que logo começou a brotar novos galhos. E sempre que o sol se punha, eles iam juntos à Cachoeira Cintilante, lembrando-se da lição mais valiosa que aprenderam: a luz do perdão é a mais brilhante de todas.