Em um vale tão verde que parecia pintado com os mais belos tons da natureza, vivia Afonso, um jovem ouriço-cacheiro. Afonso era esperto e muito observador, mas às vezes sentia um pequeno redemoinho dentro dele. Qualquer folha que caísse, qualquer galho que se movesse, qualquer borboleta que voasse diferente parecia agitar seu pequeno coração. Ele queria encontrar uma forma de sentir aquela calma que via na Mestra Jabota Aura.
Mestra Jabota Aura era uma jabota antiga e muito sábia que vivia em uma gruta secreta, perto de um riacho de águas límpidas. Diziam que ela tinha a chave para a paz interior. Afonso decidiu que a procuraria. No caminho, encontrou Lia, uma lontra cheia de energia, que pulava entre as pedras do rio.
Oi, Afonso, aonde você vai com tanta pressa? perguntou Lia, com um sorriso.
Estou indo ver a Mestra Jabota Aura, respondeu Afonso. Quero aprender sobre a paz. Meu coração parece uma corredeira às vezes.
Corredera? Que interessante! Posso ir junto? perguntou Lia, curiosa. Lia, apesar de agitada, era muito sensível e compreendia a busca de Afonso.
Juntos, eles seguiram o caminho até a gruta da Mestra Jabota Aura. Lá dentro, o ar era fresco e um silêncio suave pairava. A Mestra Jabota estava sentada, com os olhos fechados, respirando calmamente.
Mestra Aura, viemos aprender sobre a paz interior, disse Afonso, com a voz um pouco mais suave que o normal.
A paz interior, pequenos, é um riacho que corre dentro de vocês, mas às vezes fica cheio de pedras e folhas que o agitam, respondeu a jabota, com sua voz grave e tranquila. A chave não está fora, está em como vocês escutam o próprio riacho.
Ela pegou uma concha marinha, pequena e de um dourado suave, que parecia brilhar mesmo na penumbra da gruta.
Fechem os olhos, disse Mestra Aura, e ouçam esta concha. O que vocês ouvem?
Afonso e Lia fecharam os olhos e colocaram a concha perto de suas orelhas. Afonso ouviu o mar, as ondas suaves, e um som que parecia o seu próprio coração batendo devagar. Lia ouviu a vastidão e a quietude das profundezas.
Eu ouço o mar, mas também algo muito calmo, disse Afonso, surpreso.
Eu ouço o silêncio do oceano, disse Lia.
A Mestra Jabota sorriu. Essa concha, explicou ela, guarda o som da calma do oceano. Mas para ouvi-lo, vocês precisam primeiro acalmar o riacho dentro de vocês. Respirem fundo, sintam o ar entrar e sair. Observem os sons ao redor, mas não se deixem levar por eles. Apenas observem. É como se vocês pudessem pausar a corredeira por um instante.
Eles praticaram. Afonso, que antes se irritava com o chiado do vento nas folhas, começou a ouvi-lo como uma canção. Lia, que pulava de galho em galho, aprendeu a ficar parada por um momento, sentindo a terra firme sob seus pés.
Com o tempo, Afonso e Lia descobriram que a paz interior não era um lugar para se chegar, mas um jeito de estar. Era como o sussurro da concha dourada, que estava sempre lá, esperando ser ouvido, mesmo no meio da mais animada brincadeira. Eles aprenderam que, quando o redemoinho interno começava, bastava respirar fundo, fechar os olhos por um instante e escutar o próprio ritmo. E assim, o Vale Sereno se tornou ainda mais sereno, não porque os sons externos tivessem sumido, mas porque Afonso, Lia e todos que visitavam a Mestra Jabota haviam aprendido a encontrar a calma em seu próprio coração.



















