Nina, uma menina de cabelos cacheados e olhos curiosos, tinha um grande receio: o escuro. Quando o sol se punha e as sombras dançavam pelos cantos do seu quarto, Nina se escondia debaixo das cobertas, imaginando formas estranhas e barulhos misteriosos. Ela não conseguia ver a beleza que a noite podia oferecer, apenas o vazio assustador.
Certa noite, enquanto Nina espiava pela janela, um pequeno ponto de luz piscou no jardim. Era Bento, um vaga-lume inventor com óculos minúsculos e uma mochila cheia de engenhocas. Bento não tinha medo do escuro, pelo contrário, ele via a noite como uma tela em branco esperando para ser iluminada.
Olá, Nina! disse Bento, com uma voz fininha e cheia de energia. Percebi sua apreensão com a noite. Mas o escuro não é para ter medo. Ele é só um lugar onde a luz ainda não chegou, ou um lugar onde a luz se transforma.
Nina, intrigada, perguntou: Mas como posso não ter medo? Tudo fica tão… vazio!
Bento sorriu e tirou da sua mochila uma lanterna pequena e brilhante. Esta não é uma lanterna comum, Nina. Ela não afasta o escuro, ela mostra o que o escuro esconde. E com ela, vamos visitar alguém que entende muito da noite: Dona Florinda, a coruja astrônoma.
Juntos, Nina e Bento seguiram para a grande árvore no centro do jardim. A lanterna de Bento não era forte como as de acampamento, mas suave, e à medida que andavam, o que antes pareciam sombras assustadoras, revelavam-se arbustos com folhas brilhantes ou flores noturnas que se abriam apenas sob a lua.
Chegaram ao topo da árvore, onde Dona Florinda, uma coruja de penas cinzentas e olhos sábios, observava o céu através de um telescópio. Olá, pequenos exploradores da noite, cumprimentou Dona Florinda com um aceno de cabeça. Vejo que Nina precisa de uma nova perspectiva sobre o escuro.
Sim, Dona Florinda, disse Nina, um pouco menos tensa. O escuro me assusta.
A coruja suavemente respondeu: Minha querida Nina, o escuro é onde as histórias nascem sem que você perceba. É quando as estrelas podem brilhar mais forte, é quando a sua imaginação tem espaço para criar mundos inteiros. O escuro é um convite para olhar para dentro e para cima, para o infinito. Sua lanterna, Bento, é como um pequeno ponto de curiosidade que nos permite ver o que há de belo onde antes víamos apenas ausência.
Nina olhou para o céu. As palavras de Dona Florinda e a luz suave da lanterna de Bento fizeram com que ela percebesse algo novo. As formas escuras que ela imaginava no quarto começaram a se transformar em cavalos galopando entre as nuvens, em um navio de descobertas navegando pelo mar noturno. O vazio se tornou um espaço de possibilidades.
A partir daquela noite, o quarto de Nina não parecia mais tão assustador. Ela sabia que o escuro era apenas a outra metade do dia, cheia de estrelas cintilantes e de um mundo de imaginação esperando para ser explorado. Com a coragem que encontrou e a amizade de Bento e Dona Florinda, Nina aprendeu que a luz mais forte, às vezes, vem de dentro.