No coração da floresta, muito acima do chão, existia um lugar mágico conhecido como a Vila Flutuante das Bromélias. Lá, casinhas coloridas eram construídas em grandes bromélias aéreas, interligadas por pontes de cipó e balanços de folhas. Ninguém na vila era mais admirado por sua arte do que Cacau, um pequeno quati de olhos curiosos e patas ágeis. Cacau era um mestre na arte de esculpir argila, transformando-a em delicadas réplicas das flores mais raras da floresta. Suas orquídeas pareciam tão reais que quase se podia sentir seu perfume, e suas vitórias-régias flutuavam com uma leveza encantadora.
As esculturas de Cacau eram o centro das atenções em todas as feiras da Vila Flutuante. Crianças e adultos paravam para admirar seu trabalho, e o quati recebia elogios e pedidos sem parar. Não muito longe dali, em sua própria bromélia, vivia Juba, um lobo-guará com uma juba avermelhada e um olhar um pouco entristecido. Juba também amava a arte e passava horas tentando moldar a argila, mas suas flores nunca tinham a mesma graça das de Cacau. Suas pétalas ficavam tortas, os caules, desajeitados.
Cada novo elogio a Cacau, um aperto crescia no peito de Juba. Por que as esculturas de Cacau eram tão perfeitas e as suas não? A inveja, como uma nuvem escura, começou a nublar a visão de Juba. Ele tentava copiar os movimentos de Cacau, usava o mesmo tipo de argila, mas o resultado era sempre o mesmo: decepcionante. Um dia, durante a preparação para a Grande Exposição de Arte da Bromélia, Juba, sem perceber a força de sua inveja, acidentalmente deixou cair algumas folhas secas nas tintas de Cacau, manchando-as. Outra vez, ele escondeu uma ferramenta importante, achando que isso diminuiria o brilho de seu rival. Mas o talento de Cacau era genuíno e ele sempre encontrava um jeito de contornar os pequenos obstáculos, sem sequer desconfiar do que estava acontecendo.
A sábia Dona Clara, uma tamanduá-bandeira de óculos na ponta do nariz e que cuidava da Biblioteca das Bromélias, observava Juba com atenção. Ela percebeu a tristeza e o comportamento um tanto evasivo do lobo-guará. Um dia, ela o convidou para um chá de camomila em sua biblioteca aconchegante, repleta de livros feitos de folhas prensadas.
Juba, relutante, aceitou. Dona Clara, com sua voz suave e calma, disse: Juba, vejo que a arte pulsa em seu coração, mas também vejo uma sombra em seu olhar. Ele abaixou a cabeça. Dona Clara continuou: Cada um de nós nasce com um dom único, como as cores de um arco-íris, todas diferentes e todas belas. A beleza das esculturas de Cacau não diminui a sua própria capacidade de criar. A inveja nos faz focar no que o outro tem, esquecendo-nos de nossos próprios tesouros. O que você ama esculpir, Juba?
Juba pensou. Ele amava as frutas suculentas da floresta: os cajus brilhantes, as pitangas vermelhas, as mangas amarelas. Ele nunca tinha tentado esculpi-las, sempre focado nas flores. Naquele momento, ele teve uma ideia. Juba agradeceu a Dona Clara e voltou para sua casa com uma nova inspiração. Ele parou de olhar para o que Cacau fazia e começou a observar as formas e cores das frutas com um olhar completamente novo. Suas mãos, antes desajeitadas, começaram a moldar a argila com paixão. Ele criou cajus que pareciam prontos para serem mordidos, pitangas tão vibrantes que pareciam explodir de sabor, e mangas com texturas rugosas e realistas.
Quando chegou o dia da Grande Exposição de Arte da Bromélia, a surpresa foi geral. Ao lado das deslumbrantes flores de Cacau, estavam as incríveis esculturas de frutas de Juba, cheias de vida e cor. Eram tão diferentes das flores, mas igualmente espetaculares. As crianças correram para ver as frutas, e os adultos elogiavam a originalidade do lobo-guará.
Cacau, ao ver as obras de Juba, sorriu. Suas esculturas eram maravilhosas, pensou ele, e tão diferentes das minhas! Eles conversaram, admirando a arte um do outro. Perceberam que a diversidade de seus talentos tornava a exposição ainda mais rica e vibrante. Juba finalmente entendeu que não precisava ser como Cacau para ser um grande artista. Ele era único, e isso era o seu maior tesouro. A partir daquele dia, a inveja de Juba se transformou em admiração e os dois se tornaram grandes amigos, muitas vezes colaborando em projetos, criando peças que combinavam flores e frutas de uma maneira harmoniosa e cheia de alegria. A Vila Flutuante das Bromélias nunca mais foi a mesma, transbordando de arte em todas as suas formas e cores.