Numa pacata cidadezinha às margens da Mata Atlântica, morava um menino chamado Léo. Léo tinha oito anos, um cabelo castanho espetado e uma curiosidade que não cabia nele. Seus olhos brilhavam ao descobrir algo novo. Perto de sua casa, havia uma lagoa de águas calmas e verdes, que Léo sempre olhava, imaginando o que segredos ela guardava.
Um dia, enquanto caminhava pela trilha da lagoa, Léo avistou algo diferente. Flutuando no meio da água, não era um barco, mas uma espécie de jardim vibrante, cheio de plantas e flores coloridas. Seus olhos se arregalaram. Era uma horta! Mas como ela flutuava? E quem a cuidava?
Com o coração batendo forte de emoção, Léo se aproximou devagar. Em uma pequena ponte feita de tábuas de madeira reciclada, ele encontrou uma senhora de sorriso doce e cabelos brancos presos em um coque. Ela usava um avental florido e óculos que escorregavam um pouco no nariz. Ao seu lado, um sereno capivara roía um pedacinho de cenoura com calma.
— Olá! — disse a senhora, sua voz suave como o balançar das folhas. — Bem-vinda à minha Horta Flutuante. Meu nome é Jurema, e este é meu amigo Chico.
Léo, ainda surpreso, respondeu: — Meu nome é Léo. Essa horta… ela é incrível! Como a senhora fez tudo isso?
Dona Jurema riu, um som gostoso e acolhedor. — Ah, Léo, esta horta é um segredo de muita paciência e criatividade. Quase tudo que você vê aqui foi algo que as pessoas jogaram fora. Os canteiros são feitos de pneus velhos, pintados de várias cores. As garrafas de plástico se transformaram em sistemas de irrigação e até em pequenos vasos para as sementes. E os potes de vidro viraram luminárias que guardam o orvalho da manhã.
Léo olhava para cada detalhe, maravilhado. Ele nunca tinha pensado que um pneu velho pudesse ser tão bonito ou que uma garrafa de plástico pudesse ajudar a cultivar alface. Chico, a capivara, levantou a cabeça e fez um som que parecia um pequeno “hm-hm”, como se concordasse com Dona Jurema.
Dona Jurema explicou a Léo como a reciclagem e a reutilização não eram apenas maneiras de limpar a natureza, mas de dar nova vida às coisas. — Cada objeto tem uma segunda chance, Léo. Basta um pouco de imaginação.
Nos dias seguintes, Léo visitava a Horta Flutuante todos os dias. Ele ajudava Dona Jurema a regar as plantas, a colher os legumes e a procurar por novos “tesouros” descartados que pudessem ser transformados. Juntos, eles encontraram latas de alumínio que viraram sinos de vento, pedaços de madeira que se tornaram suportes para trepadeiras e até um pedaço de tecido velho que Dona Jurema transformou em uma pequena bandeira colorida.
Um dia, uma tempestade forte ameaçou a Horta Flutuante. O vento soprou forte e a chuva caiu sem parar. Um dos pneus que sustentava uma parte da horta começou a se soltar. Dona Jurema ficou preocupada.
— Precisamos de algo forte para prender este pneu, Léo! — ela exclamou. — Senão, perderemos nossos tomates!
Léo pensou rápido. Ele se lembrou de umas cordas grossas que tinham sido descartadas em uma construção perto de sua casa. Elas eram firmes e pareciam perfeitas para a tarefa.
— Dona Jurema! Eu sei onde conseguir umas cordas muito resistentes que ninguém mais quer! — ele disse, com um plano em mente.
Com a ajuda de Chico, que apontava o caminho com o nariz molhado, Léo correu para buscar as cordas. Quando voltou, ele e Dona Jurema trabalharam juntos, amarrando o pneu firmemente. Chico observava, oferecendo pequenos empurrões com a cabeça quando necessário. O trabalho em equipe e a inteligência de Léo salvaram os tomates e, com eles, uma parte importante da Horta Flutuante.
Quando o sol voltou a brilhar, a Horta Flutuante estava mais segura e ainda mais bonita, um testemunho do poder da reciclagem e da amizade. Léo, ao ver o resultado de seus esforços, sentiu um calorzinho no peito. Ele não só tinha ajudado Dona Jurema e Chico, mas também tinha aprendido que a verdadeira riqueza não está em comprar coisas novas, mas em valorizar e transformar o que já existe. Ele passou a inspirar seus amigos na cidade a ver o lixo como um tesouro em potencial, transformando pequenas coisas em grandes mudanças. E a Horta Flutuante de Dona Jurema continuou a ser um farol de esperança e criatividade, ensinando a todos o segredo de dar uma segunda vida ao mundo.