No coração da Floresta Encantada, onde o sol pintava raios dourados entre as folhas e o canto dos pássaros anunciava um novo dia, morava Guto. Guto não era um menino nem um animal. Guto era uma gotinha de orvalho, pequenina, mas com um coração gigante e uma sede imensa de conhecer o mundo. Todas as manhãs, ele escorregava de uma folha verdejante e se juntava ao riacho que serpenteava pela floresta.
Perto dali, em uma casinha colorida, vivia Joãozinho. Joãozinho adorava brincar na floresta, construir fortes com galhos e correr atrás das borboletas. Mas, às vezes, na pressa de suas aventuras, ele esquecia de fechar a torneira de casa ou deixava um papel de bala cair no chão da floresta.
Guto, em sua jornada, observava tudo. Ele via o riacho limpo e brilhante, cheio de peixinhos coloridos. Mas também via, aqui e ali, um brilho estranho de um plástico que não deveria estar ali. Ele sentia o calor do sol o elevando para o céu, transformando-o em nuvem, e depois o frio da chuva o trazendo de volta à terra, irrigando as plantas e enchendo os rios. Era um ciclo sem fim, uma dança perfeita da natureza.
Um dia, enquanto Guto viajava no ar, ele espiou a casa de Joãozinho. Viu o menino escovando os dentes com a torneira aberta, a água escorrendo sem parar. Guto sentiu um aperto, um pinguinho de tristeza. Ele sabia o quanto aquela água era preciosa.
Quando a chuva o trouxe de volta à floresta, Guto caiu bem pertinho de Seu Jequitibá, a árvore mais velha e sábia de todo o lugar. Seu Jequitibá tinha visto muitas chuvas e muitos sóis.
Ah, meu pequeno Guto, disse Seu Jequitibá com uma voz suave, quase um sussurro de folhas. Você viu o que o menino faz?
Sim, Seu Jequitibá. Ele não sabe que a água é um presente.
Seu Jequitibá balançou seus galhos majestosos. Ele não sabe ainda. Mas podemos mostrar a ele. A natureza nos ensina a cada dia.
Na tarde seguinte, Joãozinho foi brincar perto de Seu Jequitibá. Ele estava comendo um lanche e, sem perceber, deixou a embalagem cair. De repente, uma pequena brisa soprou, e a embalagem, em vez de rolar para longe, ficou presa em um galho baixinho de Seu Jequitibá, bem na frente dos olhos de Joãozinho.
Joãozinho olhou para a embalagem, depois para o tronco rugoso de Seu Jequitibá. Parecia que a árvore estava o convidando a recolher o lixo. No mesmo instante, uma pequena gota de água escorreu de uma folha e pingou na mão de Joãozinho. Era Guto, parecia querer chamar a atenção.
Joãozinho pensou. Aquele riacho que ele tanto amava, as flores que ele cheirava, os pássaros que ele ouvia, tudo dependia daquela água e da limpeza da floresta. Ele pegou a embalagem, envergonhado, e guardou no bolso.
Naquele dia, Joãozinho entendeu uma grande lição. No dia seguinte, ele fechou a torneira ao escovar os dentes e passou a carregar uma sacolinha para guardar o lixo das suas brincadeiras na floresta. Ele até começou a regar as plantinhas do quintal com a água que sobrava na sua garrafinha.
Guto, em suas viagens diárias, observava o menino. A floresta voltava a brilhar mais forte, e o riacho cantava uma canção de alegria. Seu Jequitibá sorria com seus galhos ao vento, sabendo que o coração da floresta estava mais seguro, guardado por um pequeno menino que aprendeu que cada gota, cada folha, cada gesto de cuidado faz toda a diferença. E assim, Guto, a gotinha viajante, continuou seu ciclo, feliz por fazer parte de um mundo onde todos cuidavam de todos.



















